Chromium OS: primeiras impressões
Por Wikerson Landim
Segunda-Feira, 23 de Novembro de 2009
Testamos o sistema operacional desenvolvido pelo Google. Confira o que achamos em nossa análise inicial.
Segundo um velho ditado popular, “a primeira impressão é a que fica”. Bem, se ele realmente estiver correto, não temos muitos motivos para ficar alegres após analisar pela primeira vez o Chromium OS, o sistema operacional desenvolvido pelo gigante Google.
Embora a empresa tenha deixado claro que não pretende, pelo menos nesse estágio do seu projeto, competir ou mesmo substituir os tradicionais sistemas desenvolvidos pela Microsoft e pela Apple, ainda assim não há como negar o desapontamento que tivemos ao testar o funcionamento do Chromium OS.
Antes de conferir a nossa análise, vale ressaltar um aspecto: a versão que tivemos acesso não é oficial e, por isso mesmo, não temos como afirmar que ela é final e não sofrerá mais mudanças antes do lançamento. Porém, excetuando-se a correção de alguns problemas, é difícil imaginar que teremos algo tão diferente do que vimos pela frente.
Um navegador com sistema operacional
Se fôssemos resumir em uma frase o que é o Chromium OS poderíamos utilizar esta do subtítulo para descrevê-lo perfeitamente. O novo sistema operacional nada mais é do que uma plataforma de suporte para execução do navegador Google Chrome.
Em outras palavras: depois de instalado o sistema operacional não espere ver aplicativos instalados ou mesmo se preocupar em baixar novos programas para começar a trabalhar. Todas as funções disponíveis estão online e podem ser acessadas à partir do Google Chrome.
O layout da tela inicial é extremamente simples: apresenta dezoito icones, com link direto para algumas das funções que o Google acredita serem as mais procuradas pelo usuários. A primeira linha exibe ícones para ferramentas de trabalho: Gmail, Hotmail, Yahoo! Mail, Google Calendar, Google Reader e Google Docs.
Na segunda linha o destaque fica para os links de informação audiovisual como YouTube, PicasaWeb, Hulu (TV online), Lala (música online) e Pandora (rádio online). Na terceira linha, ferramentas complementares de trabalho como Contacts, Calculator e To-do list. E, por fim, a última linha privilegia ícones de interação social e diversão como Books, Chess, Facebook e Twitter. Interessante notar que a própria rede social da empresa – o Orkut – ficou de fora.
Funcionamento e navegação
Não há nenhuma função diferenciada para os usuários do Chromium OS. O funcionamento do sistema operacional seria exatamente igual se você estivesse com o Windows ou Linux instalados e navegando na web por meio do Google Chrome.
Assim como já é possível personalizar o seu navegador com todas as opções online que o Google oferece, da mesma forma você pode fazer o mesmo no novo sistema operacional. A grande diferença aqui fica por conta da aposta na chamada “computação em nuvens”, uma tendência da internet para o futuro. O portal Baixaki já abordou esse assunto no artigo “O que é computação em nuvens”. Em resumo: não há nenhum aplicativo instalado e também não é possível instalar nada nele.
O Chromium OS será revolucionário?
Depende. Nesse campo, fazer qualquer afirmação positiva ou negativa nada mais seria do que mera especulação. Há uma tendência na internet que, no futuro, cada vez será menor a quantidade de informações armazenadas no seu computador. Em contrapartida, como já acontece hoje em dia, é cada vez maior o espaço virtual disponível para hospedar arquivos e mesmo executar aplicativos.
Agora, imaginar que da noite para o dia o usuário assimilará essa mudança, aí sim, é algo descabido – e não é essa a proposta do Google. Por isso, antes de qualquer afirmação que se possa fazer sobre o futuro do Chromium OS, é importante desmistificarmos algumas questões.
O Chromium OS não é Linux e não é o Android. O Linux apenas empresta o seu kernel para servir de base ao código do novo sistema operacional. Da mesma forma, o Android é um sistema para dispositivos móveis independente, e um não concorre de forma alguma com o outro e nem há algum tipo de similaridade.
Como já dissemos anteriormente, o Chromium OS não vai competir com o Windows e nem tem intenção alguma de rodar os aplicativos já existentes. A proposta é que tudo funcione via web e, por isso, não há a mínima intenção que, no futuro, novos aplicativos sejam instalados ou desenvolvidos para ele. Por fim, não há previsão oficial do lançamento. Boatos dão conta que apenas no final de 2010 ele estaria disponível no mercado para download.
Também quero testar o Chromium OS
Em nossos testes executamos o novo sistema operacional a partir de uma máquina virtual, no caso a VirtualBox. Você pode baixar este aplicativo aqui no Baixaki e o passo a passo para sua instalação você encontra na página do programa.
Em seguida baixamos a imagem do arquivo a partir deste link. Ressaltamos que esta não é uma fonte 100% confiável e o download fica por sua conta e risco. Recomendamos ainda que você não utilize a sua conta principal do Gmail. O ideal é criar uma conta específica para esse fim.
Depois de baixar (o arquivo está em torrent, para baixá-lo por completo utilize programas como o uTorrent ou o BitTorrent), configure a imagem como fonte de origem da máquina virtual. Defina o sistema operacional e a versão como Linux e, no campo destinado a mémória RAM, deixe um mínimo de 512 MB. Depois de concluída a configuração, clique no botão “Start” para rodar o novo sistema operacional. Na tela de login, entre com os dados (email e senha) de uma Google ID.
sábado, 28 de novembro de 2009
sábado, 21 de novembro de 2009
A construção de um mito
O filme Lula, o Filho do Brasil faz parte de um projeto de endeusamento
do presidente, o que, às vésperas de uma eleição, entra na categoria
de propaganda política. Lula tem uma bela história de vida, foi um líder
sindical de resultados e é um presidente da República eficiente e amado,
mas ele só tem a perder se se deixar transformar em mito vivo.
NA VIDA REAL
Lula foi um líder sindical carismático e pragmático que se encaixou à perfeição no projeto de distensão política do regime militar por ser da esquerda não marxista, não alinhada com o movimento comunista. internacional e, por isso, tolerada.
NA FICÇÃO
O sindicalista Lula vira na tela um Gandhi magnânimo, infalível e incorruptível cuja bondade e sabedoria se combinam com uma visão de futuro privativa dos profetas
Luiz Inácio Lula da Silva, o mais improvável dos presidentes brasileiros, já entrou na história antes de sair da vida. Lula, o filho do sertão pernambucano que comia feijão com farinha sob o árido sol de Garanhuns antes de se tornar engraxate nas ruas do Sul Maravilha, venceu. Dos sapatos chegou à fábrica de parafusos; do torno saltou para a avenida larga, longa e generosa da vida sindical, que o conduziu ao Partido dos Trabalhadores e à Presidência da República. Instalado no poder, Lula amargou escândalos, viu a dissolução ética de seu partido, observou de mãos atadas uma recessão econômica de quase dois anos que por pouco não paralisou seu governo. Mas, como não há males que durem, os escândalos foram varridos para debaixo do tapete e a recessão inicial cedeu, abrindo caminho para o crescimento econômico e a consequente onda de boa vontade com os governantes que ele traz. Com sua genuína devoção aos mais pobres e um carisma fenomenal, Lula chega às portas do seu último ano de governo com 80% de aprovação. A vida de Lula, como se vê, parece coisa de filme.
Lula, o Filho do Brasil, a cinebiografia que estreará nos cinemas no começo do próximo ano, é o primeiro filme de ficção sobre a vida do presidente. A LC Barreto, responsável pelo projeto, enviará 500 cópias ao circuito comercial – o maior lançamento da história do cinema brasileiro. As centrais sindicais, como a CUT e a Força Sindical, planejam projetar a fita para espectadores das áreas mais pobres do país. Os trabalhadores sindicalizados poderão comprar ingressos subsidiados a 5 reais. As estimativas mais conservadoras indicam que, somente nas salas comerciais, 5 milhões de pessoas assistirão ao longa. É pouco diante do que se seguirá. O DVD do filme será lançado no dia 1º de maio, feriado do trabalhador. Em seguida, a Rede Globo levará a fita ao ar, editada como uma minissérie. Ao final, se essa ambiciosa estratégia de distribuição funcionar, Luiz Inácio, o homem que fez história, dará um salto rumo a Luiz Inácio, o mito. Esse mito paira acima do bem e do mal, mas estará dizendo o que é certo e o que é errado na campanha eleitoral de 2010. Por fazer parte de um projeto de beatificação do personagem com vista a servir de propaganda eleitoral disfarçada de entretenimento na próxima campanha, Lula, o Filho do Brasil parece coisa de marqueteiro.
Antes mesmo de ser lançado em rede comercial, o filme está agitando os bastidores da política. Assessores envolvidos na campanha presidencial de Dilma Rousseff, a candidata escolhida pelo governo para suceder Lula, veem na película um poderoso instrumento eleitoral, capaz de fazer diferença na luta petista para se manter no poder. O otimismo não é gratuito. Os estrategistas do Planalto receberam pesquisas que demonstram a capacidade de transferência de votos do presidente Lula. Ou seja, se Lula mantiver a popularidade em alta, Dilma será largamente beneficiada. A população faz uma ótima avaliação de Lula e se dispõe a votar em um candidato que mantenha os principais programas do petista. Lula é o maior cabo eleitoral do país. Quase 20% dos eleitores votam em seu candidato, independentemente de quem seja (veja o quadro). A grande dificuldade de Lula é que boa parte do eleitorado não conhece Dilma nem a associa ao presidente. Por isso ela segue a léguas de distância de José Serra, do PSDB, o líder das pesquisas. Para reverter esse quadro, Lula conta com o crescimento da economia, que pode atingir até 5% do PIB em 2010, e a consequente perspectiva de que os eleitores sigam sua orientação e votem em quem ele indicar. O filme é visto como um fator estimulante nesse processo de transferência.
AVANT-PREMIÈRE
Na terça-feira da semana passada, dia 10 de novembro, VEJA esteve na primeira exibição pública do filme, que abriu o tradicional Festival de Cinema de Brasília. Numa demonstração da comoção que o longa deve causar, teve gente, de político a porteiro, que implorava por convite na frente do Teatro Nacional, onde aconteceu a projeção. Havia cerca de 1 400 pessoas no teatro, entre ministros, deputados, senadores, sindicalistas, burocratas do governo e jornalistas. Marisa Letícia, a primeira-dama, compareceu ao evento e foi assediada como celebridade. Havia gente em cadeiras improvisadas, gente nas escadas, gente no chão. Lula, o Filho do Brasil é uma novela com duas horas de duração. Em matéria de lágrimas, funciona. Em matéria de apuro estético, constrange. Como obra de arte, portanto, é uma irretocável peça de propaganda. Não poderia ser diferente: é um projeto concebido exatamente com esse propósito. Dirigido por Fábio Barreto, o filme inspira-se na biografia homônima – e oficial – do presidente, escrita pela jornalista Denise Paraná e editada pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT.
Se como cinema o filme é fraco, como propaganda e negócio tem tudo para dar certo. O apelo emocional da obra pode agradar ao público que chorou com 2 Filhos de Francisco, a história de superação dos irmãos Zezé di Camargo e Luciano. Há elementos em abundância para provocar chororô – nisso se percebe a maestria de Fábio Barreto, que apresenta ao espectador um Lula plano, sem meios-tons, cujas carnes se tornam reais apenas no sofrimento da perda da mulher grávida, ou no êxtase ao comandar as massas nos comícios sindicais. Qualquer sentimento que pudesse torná-lo mais humano, como a raiva pelo abandono do pai ou a inveja de quem tinha o que ele desejava, perde-se na produção artificial do mito, do messias que sofre, persevera e está destinado a conduzir o povo até a terra prometida (veja o quadro). O Lula de Fábio Barreto não é somente um herói sem defeitos; é um herói iluminado. Barreto faz de tudo para mostrá-lo assim, inclusive omitindo ou atenuando a verdadeira história do presidente (veja o quadro). O Lula de Barreto usa inverossímeis frases de efeito ("Homem não bate em mulher!") para impedir que o pai bata na mãe ou para desafiar a polícia autoritária do regime militar ("Cadeia foi feita para homem") – embora na vida real algumas dessas passagens jamais tenham ocorrido.
EFEITOS ESPECIAIS
O ministro Franklin Martins acredita que a mitificação precoce de Lula pode ajudar a campanha de Dilma Rousseff .
"Queria fazer um melodrama", admite o diretor. O recorte temporal do filme é a primeira prova disso. O roteiro percorre a infância miserável de Lula em Garanhuns, acompanha a trajetória dolorosa do menino que é obrigado a trabalhar para comer e avança até o mergulho dele no mundo sindical. Mas para por aí. Tudo o que aconteceu na vida do presidente entre o começo dos anos 80 e a vitória em 2002 ficou de fora: a criação do PT, a atuação como deputado na Constituinte de 1988, as cinco campanhas presidenciais. Qualquer episódio que pudesse causar constrangimento ou contrariar a narrativa hagiográfica da vida de Lula sumiu da história. Barreto suaviza algumas características notórias do presidente e omite algumas passagens pouco edificadoras. Essas opções dramáticas servem para construir o mito, que sempre precisa de um passado idealizado, idílico, no qual o futuro se desenhe glorioso, rumo ao paraíso terreno – uma mentalidade que prosperou com força na ideia do "país do futuro", no decorrer do regime militar. O clímax triunfalista do filme, quando Lula se ergue sobre as massas, reforça precisamente esse projeto autoritário.
Os bastidores do projeto revelam que essas opções não foram meramente artísticas. Houve estreita colaboração entre os produtores do filme e a equipe de Lula. Em 2003, logo após adquirir os direitos da biografia oficial do presidente, Luiz Carlos Barreto obteve o aval do presidente para tocar o longa. Políticos próximos a Lula afirmam, sob a condição de anonimato, que o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, teve influência decisiva na definição do esquema de captação de recursos. Antes da edição final, Barreto viajou para Brasília pelo menos duas vezes para exibir o filme a políticos próximos ao Planalto. A primeira sessão aconteceu há três meses. Participaram ministros, como Paulo Bernardo, do Planejamento, e Alexandre Padilha, das Relações Institucionais, e deputados, como João Paulo Cunha e Ricardo Berzoini, da cúpula do PT. Os petistas, depois da exibição, acharam as músicas incidentais muito pouco dramáticas e sugeriram acrescentar músicas populares, que seriam mais facilmente assimiláveis – no que foram prontamente atendidos.
SONOPLASTIA
Para minimizar a aparência de uma obra chapa-branca, os produtores foram orientados a não aceitar dinheiro público nem incentivos fiscais. Sem muito esforço, captaram patrocínios de dezoito empresas (veja o quadro abaixo), num total de 12 milhões de reais, uma fortuna para os padrões cinematográficos nacionais. Entre as companhias doadoras, há as que têm negócios diretos com o governo, as que têm interesses no governo e as que são controladas por instituições ligadas ao governo... Ouvidas por VEJA, as empresas explicaram que esse tipo de doação faz parte da política de incentivos culturais que cada uma delas desenvolve. Nada a ver com o perfil do biografado. O diretor de uma empreiteira, no entanto, contou a VEJA, reservadamente, o que de fato os atraiu. Segundo ele, os produtores deixaram claro que se tratava de um filme oficial, de interesse e "autorizado" pelo presidente da República. As empresas desembolsaram quantias que variaram de 500 000 a 1 milhão de reais. "Que empresa não iria querer participar? Isso ajuda a abrir várias portas no futuro. Ou, pelo menos, a não fechá-las", admite o funcionário.
A construção de um mito dentro de um regime democrático é coisa raríssima. Na política, o mito costuma surgir em estados ditatoriais, nos quais o exercício da crítica é proibido. Foi o caso de Stalin, na União Soviética, ou de Benito Mussolini, na Itália. Nesses países, assim como em Cuba de Fidel Castro ou na Alemanha de Hitler, a arte – e, em particular, o cinema – foi controlada pelo estado totalitário, numa tentativa de moldar o imaginário social em torno de um projeto de poder. O Brasil, claro, não se encaixa nessa categoria. Diz o cientista político Octaciano Nogueira, da Universidade de Brasília: "No Brasil, a criação de um mito dentro de um regime democrático é uma situação inédita. Desde Getúlio Vargas não há um fascínio tão perigoso com um líder carismático". Lula já entrou na história, mas é cedo para dizer em qual categoria – se na dos líderes populistas ou na dos estadistas.
do presidente, o que, às vésperas de uma eleição, entra na categoria
de propaganda política. Lula tem uma bela história de vida, foi um líder
sindical de resultados e é um presidente da República eficiente e amado,
mas ele só tem a perder se se deixar transformar em mito vivo.
NA VIDA REAL
Lula foi um líder sindical carismático e pragmático que se encaixou à perfeição no projeto de distensão política do regime militar por ser da esquerda não marxista, não alinhada com o movimento comunista. internacional e, por isso, tolerada.
NA FICÇÃO
O sindicalista Lula vira na tela um Gandhi magnânimo, infalível e incorruptível cuja bondade e sabedoria se combinam com uma visão de futuro privativa dos profetas
Luiz Inácio Lula da Silva, o mais improvável dos presidentes brasileiros, já entrou na história antes de sair da vida. Lula, o filho do sertão pernambucano que comia feijão com farinha sob o árido sol de Garanhuns antes de se tornar engraxate nas ruas do Sul Maravilha, venceu. Dos sapatos chegou à fábrica de parafusos; do torno saltou para a avenida larga, longa e generosa da vida sindical, que o conduziu ao Partido dos Trabalhadores e à Presidência da República. Instalado no poder, Lula amargou escândalos, viu a dissolução ética de seu partido, observou de mãos atadas uma recessão econômica de quase dois anos que por pouco não paralisou seu governo. Mas, como não há males que durem, os escândalos foram varridos para debaixo do tapete e a recessão inicial cedeu, abrindo caminho para o crescimento econômico e a consequente onda de boa vontade com os governantes que ele traz. Com sua genuína devoção aos mais pobres e um carisma fenomenal, Lula chega às portas do seu último ano de governo com 80% de aprovação. A vida de Lula, como se vê, parece coisa de filme.
Lula, o Filho do Brasil, a cinebiografia que estreará nos cinemas no começo do próximo ano, é o primeiro filme de ficção sobre a vida do presidente. A LC Barreto, responsável pelo projeto, enviará 500 cópias ao circuito comercial – o maior lançamento da história do cinema brasileiro. As centrais sindicais, como a CUT e a Força Sindical, planejam projetar a fita para espectadores das áreas mais pobres do país. Os trabalhadores sindicalizados poderão comprar ingressos subsidiados a 5 reais. As estimativas mais conservadoras indicam que, somente nas salas comerciais, 5 milhões de pessoas assistirão ao longa. É pouco diante do que se seguirá. O DVD do filme será lançado no dia 1º de maio, feriado do trabalhador. Em seguida, a Rede Globo levará a fita ao ar, editada como uma minissérie. Ao final, se essa ambiciosa estratégia de distribuição funcionar, Luiz Inácio, o homem que fez história, dará um salto rumo a Luiz Inácio, o mito. Esse mito paira acima do bem e do mal, mas estará dizendo o que é certo e o que é errado na campanha eleitoral de 2010. Por fazer parte de um projeto de beatificação do personagem com vista a servir de propaganda eleitoral disfarçada de entretenimento na próxima campanha, Lula, o Filho do Brasil parece coisa de marqueteiro.
Antes mesmo de ser lançado em rede comercial, o filme está agitando os bastidores da política. Assessores envolvidos na campanha presidencial de Dilma Rousseff, a candidata escolhida pelo governo para suceder Lula, veem na película um poderoso instrumento eleitoral, capaz de fazer diferença na luta petista para se manter no poder. O otimismo não é gratuito. Os estrategistas do Planalto receberam pesquisas que demonstram a capacidade de transferência de votos do presidente Lula. Ou seja, se Lula mantiver a popularidade em alta, Dilma será largamente beneficiada. A população faz uma ótima avaliação de Lula e se dispõe a votar em um candidato que mantenha os principais programas do petista. Lula é o maior cabo eleitoral do país. Quase 20% dos eleitores votam em seu candidato, independentemente de quem seja (veja o quadro). A grande dificuldade de Lula é que boa parte do eleitorado não conhece Dilma nem a associa ao presidente. Por isso ela segue a léguas de distância de José Serra, do PSDB, o líder das pesquisas. Para reverter esse quadro, Lula conta com o crescimento da economia, que pode atingir até 5% do PIB em 2010, e a consequente perspectiva de que os eleitores sigam sua orientação e votem em quem ele indicar. O filme é visto como um fator estimulante nesse processo de transferência.
AVANT-PREMIÈRE
Na terça-feira da semana passada, dia 10 de novembro, VEJA esteve na primeira exibição pública do filme, que abriu o tradicional Festival de Cinema de Brasília. Numa demonstração da comoção que o longa deve causar, teve gente, de político a porteiro, que implorava por convite na frente do Teatro Nacional, onde aconteceu a projeção. Havia cerca de 1 400 pessoas no teatro, entre ministros, deputados, senadores, sindicalistas, burocratas do governo e jornalistas. Marisa Letícia, a primeira-dama, compareceu ao evento e foi assediada como celebridade. Havia gente em cadeiras improvisadas, gente nas escadas, gente no chão. Lula, o Filho do Brasil é uma novela com duas horas de duração. Em matéria de lágrimas, funciona. Em matéria de apuro estético, constrange. Como obra de arte, portanto, é uma irretocável peça de propaganda. Não poderia ser diferente: é um projeto concebido exatamente com esse propósito. Dirigido por Fábio Barreto, o filme inspira-se na biografia homônima – e oficial – do presidente, escrita pela jornalista Denise Paraná e editada pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT.
Se como cinema o filme é fraco, como propaganda e negócio tem tudo para dar certo. O apelo emocional da obra pode agradar ao público que chorou com 2 Filhos de Francisco, a história de superação dos irmãos Zezé di Camargo e Luciano. Há elementos em abundância para provocar chororô – nisso se percebe a maestria de Fábio Barreto, que apresenta ao espectador um Lula plano, sem meios-tons, cujas carnes se tornam reais apenas no sofrimento da perda da mulher grávida, ou no êxtase ao comandar as massas nos comícios sindicais. Qualquer sentimento que pudesse torná-lo mais humano, como a raiva pelo abandono do pai ou a inveja de quem tinha o que ele desejava, perde-se na produção artificial do mito, do messias que sofre, persevera e está destinado a conduzir o povo até a terra prometida (veja o quadro). O Lula de Fábio Barreto não é somente um herói sem defeitos; é um herói iluminado. Barreto faz de tudo para mostrá-lo assim, inclusive omitindo ou atenuando a verdadeira história do presidente (veja o quadro). O Lula de Barreto usa inverossímeis frases de efeito ("Homem não bate em mulher!") para impedir que o pai bata na mãe ou para desafiar a polícia autoritária do regime militar ("Cadeia foi feita para homem") – embora na vida real algumas dessas passagens jamais tenham ocorrido.
EFEITOS ESPECIAIS
O ministro Franklin Martins acredita que a mitificação precoce de Lula pode ajudar a campanha de Dilma Rousseff .
"Queria fazer um melodrama", admite o diretor. O recorte temporal do filme é a primeira prova disso. O roteiro percorre a infância miserável de Lula em Garanhuns, acompanha a trajetória dolorosa do menino que é obrigado a trabalhar para comer e avança até o mergulho dele no mundo sindical. Mas para por aí. Tudo o que aconteceu na vida do presidente entre o começo dos anos 80 e a vitória em 2002 ficou de fora: a criação do PT, a atuação como deputado na Constituinte de 1988, as cinco campanhas presidenciais. Qualquer episódio que pudesse causar constrangimento ou contrariar a narrativa hagiográfica da vida de Lula sumiu da história. Barreto suaviza algumas características notórias do presidente e omite algumas passagens pouco edificadoras. Essas opções dramáticas servem para construir o mito, que sempre precisa de um passado idealizado, idílico, no qual o futuro se desenhe glorioso, rumo ao paraíso terreno – uma mentalidade que prosperou com força na ideia do "país do futuro", no decorrer do regime militar. O clímax triunfalista do filme, quando Lula se ergue sobre as massas, reforça precisamente esse projeto autoritário.
Os bastidores do projeto revelam que essas opções não foram meramente artísticas. Houve estreita colaboração entre os produtores do filme e a equipe de Lula. Em 2003, logo após adquirir os direitos da biografia oficial do presidente, Luiz Carlos Barreto obteve o aval do presidente para tocar o longa. Políticos próximos a Lula afirmam, sob a condição de anonimato, que o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, teve influência decisiva na definição do esquema de captação de recursos. Antes da edição final, Barreto viajou para Brasília pelo menos duas vezes para exibir o filme a políticos próximos ao Planalto. A primeira sessão aconteceu há três meses. Participaram ministros, como Paulo Bernardo, do Planejamento, e Alexandre Padilha, das Relações Institucionais, e deputados, como João Paulo Cunha e Ricardo Berzoini, da cúpula do PT. Os petistas, depois da exibição, acharam as músicas incidentais muito pouco dramáticas e sugeriram acrescentar músicas populares, que seriam mais facilmente assimiláveis – no que foram prontamente atendidos.
SONOPLASTIA
Para minimizar a aparência de uma obra chapa-branca, os produtores foram orientados a não aceitar dinheiro público nem incentivos fiscais. Sem muito esforço, captaram patrocínios de dezoito empresas (veja o quadro abaixo), num total de 12 milhões de reais, uma fortuna para os padrões cinematográficos nacionais. Entre as companhias doadoras, há as que têm negócios diretos com o governo, as que têm interesses no governo e as que são controladas por instituições ligadas ao governo... Ouvidas por VEJA, as empresas explicaram que esse tipo de doação faz parte da política de incentivos culturais que cada uma delas desenvolve. Nada a ver com o perfil do biografado. O diretor de uma empreiteira, no entanto, contou a VEJA, reservadamente, o que de fato os atraiu. Segundo ele, os produtores deixaram claro que se tratava de um filme oficial, de interesse e "autorizado" pelo presidente da República. As empresas desembolsaram quantias que variaram de 500 000 a 1 milhão de reais. "Que empresa não iria querer participar? Isso ajuda a abrir várias portas no futuro. Ou, pelo menos, a não fechá-las", admite o funcionário.
A construção de um mito dentro de um regime democrático é coisa raríssima. Na política, o mito costuma surgir em estados ditatoriais, nos quais o exercício da crítica é proibido. Foi o caso de Stalin, na União Soviética, ou de Benito Mussolini, na Itália. Nesses países, assim como em Cuba de Fidel Castro ou na Alemanha de Hitler, a arte – e, em particular, o cinema – foi controlada pelo estado totalitário, numa tentativa de moldar o imaginário social em torno de um projeto de poder. O Brasil, claro, não se encaixa nessa categoria. Diz o cientista político Octaciano Nogueira, da Universidade de Brasília: "No Brasil, a criação de um mito dentro de um regime democrático é uma situação inédita. Desde Getúlio Vargas não há um fascínio tão perigoso com um líder carismático". Lula já entrou na história, mas é cedo para dizer em qual categoria – se na dos líderes populistas ou na dos estadistas.
