Pensei que fosse uma exclusividade do trânsito a presença de pedintes e seus limões. Já explico.
Aplicando um teste numa turma de terceira série do Ensino Médio - futuros universitários - me ocorreu que alguns dos alunos comportam-se de forma semelhante aos “sem tetos” do trânsito. Como se fizessem um estágio, sem os limões para o malabarismo que os identifiquem, ainda que, aqui, em sala de aula, eles não sejam necessários.
A verdade é que tão logo os testes são distribuídos, facilmente identificamos os alunos que, sem a garantia de conseguirem resolver toda a prova, debruçam-se sobre suas provas, com a certeza de que serão capazes de pelo menos, reconhecerem nessa prova, situações similares àquelas que compartilharam em aulas anteriores; também, com pequena margem de erro, e grande constrangimento, identificamos os alunos que se instalam em lugares estratégicos, perto dos primeiros, e os cercam, na esperança de ganhar algumas questões, ou roubá-las quando houver uma chance, lembrando abutres disputando as sobras.
Dá pena assistir isso. A representação de alguns quando percebem que estão sendo observados beira ao ridículo.
Receio que para quase todos tal comportamento lhes pareça normal ou, para alguns deles, a única possibilidade de conseguir “sucesso”.
Por vezes sinto vergonha de encarar alguns deles depois de assistir seus comportamentos diante da prova, ou antes, nas aulas que antecederam a elas. Até que ponto devo me sentir responsável por esse comportamento? Que ações do professor vêm encorajando-os nessa prática e, contribuindo, para que outros alunos, os primeiros, que tinham na participação em aula o caminho para obter sucesso nas provas, agora, também se incluírem aí, que lhes é mostrado como o caminho mais fácil?
Sempre ouvi que os pedintes que equilibram seus limões no trânsito moravam em favelas e pertenciam à base da pirâmide. No entanto, sempre estive em salas de aulas da classe média onde os limões são adquiridos com menos esforço.
Até onde um pedinte pode reclamar da falta de oportunidades? Quando é que um indivíduo percebe que é um ser pensante, diferente de outros animais e que é responsável também pelo seu sucesso? Com que idade, com que família, com que escola, acontece essa percepção? Quem é o disparador desse processo?
Daqui da frente, onde me encontro, observando seus comportamentos, assisto a alguns vivendo de migalhas, desde cedo em salas de aulas. São estes, que apenas transitam em salas de aulas, que se sentindo melhores que outros, discriminam os “sem salas de aulas” dos trânsitos, como aqueles que não souberam agarrar suas oportunidades.
Qual dos dois abriu mão de suas oportunidades?
Emprestado de Quincas*, se “as batatas, aos vencedores”: “os limões aos perdedores”. Queremos vender batatas, mas, pelo andar da carruagem, “vão faltar limões”.
Temos que buscar uma razão maior para estar em salas de aulas. O salário, como sabemos, não é o bastante. (Usei a palavra “bastante” por força do texto, não pelo salário)
Prof. José Carlos M. de Araújo.
* e com a contribuição do amigo professor Uanderson de literatura.

Nenhum comentário:
Postar um comentário