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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Da socialização enquanto ferramenta política

Da socialização enquanto ferramenta política
Nesta hora de divisão partidária reflexiva, com os norte-americanos frustrados pela aparente incapacidade de Washington resolver questões fiscais importantes, entre outras, surge uma pergunta inevitável: será que o presidente Barack Obama pode fazer alguma coisa para criar boa vontade suficiente para aprovar reformas duradouras?
Eis aqui uma proposta modesta, tirada da presidência de outro político e escritor, alto, bacana e cerebral: utilizar a Casa Branca e a companhia pessoal do presidente para tentar tecer conexões e aumentar a noção de propósito comum na capital dos Estados Unidos. Jantares com o presidente – ou café da manhã, almoço, cafezinho, drinques ou golfe – não criarão um Valhala bipartidário glorioso, mas a História sugere que ao menos um de nossos maiores presidentes dominou a arte de receber visando o efeito político.
Durante seus dois mandatos, na véspera de cada sessão do Congresso, o presidente Thomas Jefferson (1743-1826) alertava aos amigos que, no linguajar de hoje em dia, ele estava prestes a se desconectar. "Como o Congresso vai se reunir neste dia da semana, agora nós começamos a entrar no burburinho da preparação", ele escreveu a um familiar. "Quando começar, entre as ocupações do trabalho e as de anfitrião, devo me tornar um correspondente impontual."
Horas que Jefferson poderia ter dedicado a ver amigos em Washington ou a escrever cartas eram, ao contrário, consumidas por sua campanha razoavelmente constante de utilização de suas horas sociais – e, principalmente, à mesa de jantar – como forma de desbastar os encaixes políticos.
Para ele, a sociabilidade era essencial ao republicanismo. Homens que gostassem, respeitassem e desfrutassem a companhia uns dos outros estariam mais inclinados a cultivar os hábitos virtuosos que verdadeiramente possibilitariam aos cidadãos da nação se envolver na "busca da felicidade". Um homem afável em harmonia com os vizinhos teria maior probabilidade de compreender os mútuos sacrifícios de opinião necessários ao sucesso de uma república.
No final de 1801, a rotina de Jefferson em Washington se tornara aquilo descrito por ele como "um curso contínuo e uniforme". Ele começava o dia trabalhando na escrivaninha, cuidando da papelada e recebendo visitantes de manhã cedo ao meio-dia; isso lhe dava, a seu ver, "um intervalo de quatro horas para cavalgar, jantar e um pouquinho de espairecimento". Ao meio-dia ele tentava deixar a casa presidencial para cavalgar ou caminhar antes de voltar ao redor das 16h, quando se "envolvia com visitas". Ele vivia recebendo visitas, de forma elegante e com propósito. Os convidados ficavam novamente arrebatados por "suas maneiras gentis, francas e tranquilas".
As campanhas ao redor da mesa de Jefferson eram intensamente práticas. Ele acreditava na conversação constante entre o presidente e os legisladores, pois segundo escreveu, "se os membros souberem o que é importante a ser colocado numa mensagem pública, o governo torna-se de oportunidade e não de concepção". Em grande medida, a estratégia de Jefferson funcionou. Durante seu dois mandatos, de 1801 a 1809, escutou-se os oponentes reconhecerem que "os jantares do presidente os silenciaram" nos momentos em que estavam inclinados a votar contra o governo.
Seus dons de anfitrião também amaciaram os inimigos. O senador federalista William Plumer, de New Hampshire, começou a carreira em Washington com as previsíveis visões adversas a Jefferson. A princípio, Plumer desprezava Jefferson como o líder de um "governo impotente e fraco". Com o passar dos anos, sua opinião sobre o presidente, formada a portas fechadas, passou da hostilidade ao respeito. "Quanto mais examino a personalidade e conduta do Sr. Jefferson de forma crítica e imparcial, mais favorável me é sua integridade", escreveu o senador em 1806.
Todavia, Jefferson sabia ser implacável quanto ao uso do seu tempo limitado no poder. Para criar um ethos de civilidade suprapartidária, teria sido necessário trazer políticos de visões opostas sob sua égide. Jefferson tinha apenas quatro ou oito anos para deixar sua impressão sobre o país e não estava disposto a desperdiçar nenhuma das horas presidindo discussões, até mesmo as educadas, entre facções diferentes em sua mesa.
Então, ele escolheu utilizar o jantar na casa do presidente para colocar a si e a seu programa no centro das coisas. Ele pôs um fim às disposições mais formais comuns aos presidentes George Washington e John Adams, proibindo a disposição dos visitantes por precedência – ele preferia a "balbúrdia", a prática mais democrática de deixar os convidados escolherem onde sentar. A criação gentil da desordem no jantar ampliava sua própria força como interlocutor.
Jefferson não tinha encantos utópicos sobre a eficácia da arte de receber como ferramenta política. Ele sabia que os interesses terminariam se chocando; enquanto decorriam os anos na presidência, sua meta era a de atenuar as diferenças partidárias, não eliminá-las, pois a eliminação era impossível. Porém, como ele disse, "o terreno da liberdade deve ser ganho polegada a polegada". Assim é o terreno do governo, como podemos esperar que o presidente eleito perceba quando seu segundo mandato começar para valer.
(Jon Meacham é o autor de "Thomas Jefferson: The Art of Power".)

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